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Shape of Dreams chega ao PS5 apostando no caos das builds e na química do co-op

Por Dudu Mendonça 19 de setembro de 2026 0 comentarios
Co-op roguelite Shape of Dreams launches today on PS5
Imagem de divulgação

Todo roguelite começa com uma promessa meio cruel: você vai entrar sem saber exatamente o que encontrará e, em algum momento, provavelmente vai perder tudo. Shape of Dreams transforma essa incerteza no coração da experiência. O jogo chega hoje ao PlayStation 5 com um mundo de sonhos que se remodela a cada descida, nove Travelers diferentes e uma proposta que parece simples na superfície, mas rende muita conversa de bar: a graça não está em encontrar a resposta certa, e sim em decidir o que fazer com aquilo que apareceu na sua frente.

Isso muda a maneira de olhar para uma build. Em vez de perseguir uma combinação perfeita como quem consulta uma receita, o jogador é convidado a improvisar com as ferramentas disponíveis. Uma habilidade de ataque contra um único alvo pode ganhar uma Essence que faz o golpe saltar para inimigos próximos. Outra pode reduzir o tempo de recarga sempre que acertar alguém. A mesma Memory deixa de ser apenas uma peça da ficha e passa a funcionar como matéria-prima para uma ideia nova.

O sonho se molda no meio da pancadaria

O combate de Shape of Dreams é rápido, agressivo e chamativo, mas a velocidade não parece existir só para encher a tela de efeitos. Ela combina com a estrutura dos Rapids, esse mundo onírico que se reorganiza toda vez que o jogador entra. Você escolhe um Traveler, mergulha nesse cenário instável e começa a montar sua identidade de combate enquanto enfrenta o que o sonho decidiu colocar no caminho.

As Memories são as habilidades centrais equipadas pelo jogador. Já as Essences funcionam como modificadores capazes de reescrever profundamente o comportamento dessas habilidades. Com mais de 200 Memories e Essences disponíveis, a proposta é que duas partidas não precisem seguir o mesmo plano. O detalhe importante está justamente aí: o jogo não apresenta a variedade como uma prateleira de opções para ser admirada, mas como um convite para testar relações improváveis entre as peças.

Essa é uma diferença pequena no vocabulário e grande na prática. “Encontrar a melhor habilidade” sugere que existe uma resposta escondida esperando ser descoberta. “Decidir o que fazer com o que encontrou” coloca o jogador no centro da criação. Uma sala cheia de inimigos pode ser resolvida com uma habilidade que se espalha, com um efeito que acelera a recarga ou com uma combinação que ninguém planejou antes da partida. O encanto está menos na coleção e mais na transformação.

Cada Traveler também começa com duas características próprias que ajudam a definir o ponto de partida da build. A Traveler Memory é uma habilidade ativa, enquanto a Identity Memory funciona como passiva. Antes de cada run, o jogador escolhe uma entre duas opções para cada espaço. Não é apenas uma questão de empilhar poderes durante a descida: a escolha já altera a fundação da aventura antes mesmo de o primeiro combate começar.

O que permanece quando a run termina

Como todo bom roguelite, Shape of Dreams precisa responder a uma pergunta delicada: o que fazer com o fracasso? A resposta passa pela Constellation de cada Traveler. O progresso acumulado não é perdido quando uma run termina, permitindo que os personagens cresçam aos poucos e alcancem patamares que uma única descida jamais ofereceria.

Esse tipo de progressão muda o peso de uma derrota. Perder ainda significa abandonar os ganhos imediatos daquela tentativa, mas a jornada não volta completamente ao ponto zero. Há uma sensação de continuidade na ideia de retornar aos Rapids repetidas vezes, como alguém que visita o mesmo sonho até começar a enxergar suas regras. A atualização The Starless Path amplia esse sistema com novas Stars que podem ser encaixadas na progressão dos Travelers.

O conteúdo também coloca a história em uma estrutura mais concreta. O sistema Way of Stars conecta a trajetória de cada Traveler como se fosse uma constelação. Ao alcançar as profundezas dos Rapids, o jogador desbloqueia episódios e ilustrações escondidos, além de encarar um novo final e o chefe final mais difícil do jogo. Não é apenas uma camada de números sobre a ação: existe uma tentativa de fazer a repetição das runs carregar também uma narrativa própria.

Os chefes do mundo ainda ganham padrões secundários de ataque nas dificuldades mais altas. A mudança é importante porque evita que o conhecimento adquirido vire uma autorização para jogar no piloto automático. O jogador pode reconhecer um inimigo, mas precisa continuar atento ao comportamento mais perigoso que aparece em desafios elevados. Em um jogo sobre sonhos que mudam de forma, até o que parecia familiar recebe uma pequena rachadura.

Co-op sem papel marcado na testa

A cooperação para até quatro jogadores é outro ponto em que a proposta fica mais interessante do que o rótulo “jogo cooperativo” costuma sugerir. Não existem funções fixas obrigatórias. Cada pessoa monta sua própria build, e o grupo precisa descobrir como essas quatro escolhas independentes podem se encaixar no campo de batalha.

Um jogador pode congelar inimigos para que outro cause dano extra nos alvos imobilizados. Alguém pode puxar vários adversários para um único ponto, abrindo espaço para o restante da equipe limpar a área de uma vez. A lógica não é distribuir tarefas de maneira rígida, como se cada personagem recebesse um crachá de tanque, suporte ou causador de dano. É mais interessante pensar em colisões: habilidades que se encontram, criam uma oportunidade e transformam uma sequência caótica em ritmo de grupo.

Essa liberdade combina com o sistema de Memories e Essences. Se cada jogador pode alterar profundamente o funcionamento das próprias habilidades, a party vira uma pequena experiência de engenharia improvisada. O congelamento de um personagem pode ganhar outro significado quando existe alguém pronto para explorar o alvo parado. Uma habilidade de controle pode deixar de ser apenas defensiva quando o grupo aprende a concentrar dano em uma área específica.

O jogo pode ser aproveitado sozinho, mas a versão de PS5 chega com cross-play ativo no lançamento. Os lobbies ficam unificados entre PC e outros consoles, permitindo formar grupo sem depender de uma plataforma específica. Para uma experiência que aposta tanto na combinação entre builds, essa integração ajuda a sustentar a ideia de que a aventura não precisa acontecer em uma bolha.

O que a atualização muda na leitura do jogo

The Starless Path chega junto da versão de PS5 e reúne as melhorias e o novo conteúdo trabalhados ao longo de um ano com mais de 1,5 milhão de jogadores no Steam. O destaque mais imediato é Cetus, um novo Traveler de longo alcance que atua como tanque de gelo. Ele controla o campo de batalha com congelamento e mantém escudos em si mesmo e nos aliados.

Cetus parece desenhado para quem gosta de ser a pessoa que impede uma situação ruim de virar desastre. Seu papel não é apenas sobreviver: é criar espaço para o grupo respirar quando o mapa aperta. Em uma party sem funções obrigatórias, ele apresenta uma fantasia bem clara, a de transformar controle e proteção em tempo para os companheiros executarem suas próprias ideias.

A atualização também abre uma nova rota de progressão com Fallen Stars e Faded Memories. A Identity Memory, antes limitada às opções do próprio Traveler, pode ser trocada por uma entre seis Universal Identity Memories. Isso permite experimentar caminhos que não estavam disponíveis dentro da identidade original de cada personagem. O resultado é uma camada extra de personalização, mas também uma provocação ao jogador: até onde a identidade de um Traveler depende das habilidades que ele recebeu no começo?

É aí que Shape of Dreams encontra seu tema mais forte. O jogo não trata o sonho como um cenário bonito onde as batalhas acontecem. Ele coloca a transformação no centro de tudo: o mundo muda, as habilidades mudam, a progressão continua depois da derrota e os Travelers podem assumir combinações que deslocam sua função inicial. A fantasia não está em controlar um poder definitivo, mas em descobrir o que aquele poder pode se tornar quando encontra a peça certa.

A rodada final do Buteco

O ponto mais promissor de Shape of Dreams é também o que vai definir sua força: a capacidade de fazer cada partida parecer uma história de improviso, e não apenas uma sequência de salas com recompensas. As Memories e Essences têm potencial para gerar momentos memoráveis porque alteram o significado das habilidades, enquanto o co-op dá às builds uma segunda camada de leitura — não basta ser forte sozinho quando a combinação com os amigos pode criar um ritmo ainda melhor.

Há um pé atrás compreensível: tanta liberdade pode ser empolgante quando as sinergias aparecem, mas exige que o jogo consiga comunicar bem o valor de cada escolha. Sem essa clareza, mais de 200 possibilidades podem virar barulho. A chegada de sistemas como o Way of Stars, novas opções de Identity Memory e progressão persistente ajuda a dar direção, mas a experiência ainda depende de o jogador enxergar por que uma combinação merece ser levada adiante.

Mesmo assim, a tese é boa e bastante específica. Shape of Dreams não quer que você encontre a build perfeita e repita a fórmula para sempre. Ele quer ver o que acontece quando uma habilidade, uma Essence, três companheiros e um mapa instável caem na mesma noite. No PS5, o convite é mergulhar nos Rapids e aceitar que a melhor jogada talvez seja aquela que ninguém planejou antes da porta se abrir.

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